CRÔNICA - "QUEM ACOMPANHA O CAMINHO DA SEMENTE?"
Por Rodrigo Froés
Todos os dias, no alvorecer da escola, vejo cenas que me emocionam mais do que qualquer resultado de avaliação externa ou planilha de desempenho. Vejo mãos dadas, passos miúdos, mochilas quase maiores que as crianças, e olhos atentos de quem leva, não só um filho, mas um pedaço do próprio coração até o portão da escola. Há mães com guarda-sóis, avós que enfrentam o cansaço dos anos, irmãos mais velhos em missão. Cada um, à sua maneira, cumpre um ritual silencioso de amor, entrega e esperança.
Esse fenômeno é especialmente vívido na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental. É quando a escola ainda pulsa no cotidiano da família como algo sagrado. É quando o aprendizado se mistura com o cuidado, e a responsabilidade escolar é compartilhada com afeto, rotina e presença. É o tempo em que a criança é levada — e cuidada — com olhos atentos.
Mas então, algo começa a mudar.
A partir do sexto ano, quando o estudante já caminha sozinho, a escola também começa a ser deixada só. O que era uma fila de responsáveis atentos vira um pátio silencioso de alunos solitários. O envolvimento familiar, segundo pesquisas como a da Fundação Itaú Social (2020), despenca. Os dados mostram que apenas 17% dos pais de estudantes do Ensino Médio participam ativamente da vida escolar dos filhos. No Ensino Fundamental II, o número sobe para 38%, mas ainda é insuficiente diante dos desafios dessa fase.
A pergunta que ecoa é: onde se perdeu o fio?
Será que os pais acreditam que, após a autonomia física, a criança já pode cuidar sozinha da própria formação emocional, cognitiva e ética?
O educador José Pacheco, idealizador da Escola da Ponte, já dizia: “A escola só educa se educar com a família. A família só educa se educar com a escola. Separadas, ambas fracassam.”
Paulo Freire também nos alertava para a responsabilidade coletiva na educação: “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante!”
Mas quem dá sentido à jornada do filho quando o portão se fecha e os pais não voltam mais?
A metáfora que me vem é a da semente.
Muitos pais plantam com zelo, mas depois não regam, não adubam, não observam as folhas crescendo ou murchando. Esperam que a planta floresça por si só, ignorando que mesmo a raiz mais forte precisa de nutrientes vindos do entorno.
A escola nunca poderá substituir a família.
O professor, por mais dedicado, jamais será pai ou mãe.
Mas juntos — escola e lar — podemos construir pontes, sustentar caminhos, formar cidadãos inteiros.
A ausência da família no Ensino Médio é um retrato do esgotamento, mas também de uma cultura que ainda não entendeu que a formação é um processo contínuo. E se queremos um país melhor, precisamos olhar para essa ausência como um problema que não é só pedagógico, mas também afetivo e social.
Educar não é só plantar.
É acompanhar o crescimento.
É notar as folhas, cuidar dos galhos tortos, proteger dos ventos fortes.
É estar presente, mesmo quando a criança já sabe o caminho.
E por isso, todos os dias, no portão da escola, me emociono.
Porque ali ainda vejo esperança, vejo cuidado, vejo futuro.
E me pergunto: quando foi que começamos a achar que o amor tem hora para terminar?
“A mão que conduz a criança até a escola é a mesma que deve acompanhá-la, invisível, por toda a vida.”
Essa é a educação que acredito.
Aquela que não larga a mão — mesmo quando os filhos já caminham sozinhos.
Professor Rodrigo Froés é Mestre em Ciências da Educação
Especialista em Educação Especial, Gestão e metodologia de História e Geografia.
MBA em Políticas Públicas Municipais e Graduado em História.
Gestor do Centro Municipal de Educação de Jovens e adultos Prof. Samuel Benchimol
Professor da Educação de Jovens e Adultos na Secretaria Estadual de educação do Amazonas.
Professor do Centro Universitário Leonardo DaVinci - Uniasselvi.
Vencedor de diversos prêmios na área da educação entre eles:
Educador Nota 10 considerado o Oscar da educação brasileira e o Fidal figurando entre os cinquenta melhores Professores da América Latina.
Além do Prêmio Ozires Silva de Empreendedorismo Sustentável promovido pela FGV/Escola de Negócios em Curitiba.
Top 10 no Prêmio Espírito Público
Medalha do Mérito Educacional Professora Ignes de Vasconcelos
Ordem do Mérito Legislativo
Por dois anos consecutivos recebeu o Prêmio Arara Cultural para personalidades atuantes na Cultura da Amazônia;
Comendador Grão Colar da Câmara Brasileira de Cultura. Representante Estadual.
Membro da Academia de letras e Culturas da Amazônia.- ALCAMA
Membro da Academia de Ciências e Artes do Brasil - ACAB
Membro da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia – ALACA
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