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O BRASIL REAL E O MUNDO DO ABSURDO



Professor Rodrigo Froés

Outro dia, parei diante de uma vitrine de shopping. Lá dentro, um berço de madeira branca, almofadado com renda, exibia um bebê reborn. Parecia real: bochechas rosadas, olhos quase vivos, uma chupeta presa por fita de cetim. Custava o preço de três meses de feijão para uma família de quatro pessoas. Do lado de fora do vidro, uma criança olhava o boneco como quem olha um mistério — talvez tentando entender por que alguém compraria um bebê de mentira quando tanta gente daria tudo para alimentar um bebê de verdade.

A internet, esse espelho do que somos (ou pensamos ser), não fica atrás. Agora o surto da vez é o tal de “morango do amor” — pessoas que transformam relacionamentos em reality os divórcios dos influencer vira notícias, vitrines de afeto fake, episódios roteirizados para vender cosméticos e promessas de felicidade instantânea. Entre uma dancinha e outra, milhões se deleitam em comentar o romance que mal existe, enquanto o país real luta para ter o básico na geladeira.

Segundo dados da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional), divulgados em 2023, mais de 33 milhões de brasileiros vivem em situação de fome. Isso mesmo: 33 milhões. Outros 58,7% da população convive com algum grau de insegurança alimentar — ou seja, a comida pode não dar para amanhã. Enquanto isso, o bife de ouro, a sobremesa da moda, o sorvete de frutas exóticas viralizam como se fosse conquista de todos. A realidade? Tem criança que vai para a escola para fazer a única refeição do dia . Tem criança que nunca provou morango, manga ou kiwi. Enquanto isso, influencers experimentam sobremesas de mil reais para gerar engajamento.

Talvez o bebê reborn seja mais que um boneco — seja um símbolo de como anestesiamos o real. Uma distração para esquecer o choro do bebê de verdade, que mama só água com açúcar porque o leite acabou. O “morango do amor” é outra anestesia: faz o pobre acreditar que basta comer o doce que será parte dessa sociedade, enquanto a mulher da periferia apanha em silêncio, a jovem negra assume dois empregos para criar os filhos sozinha e ninguém faz reels disso.

Vivemos uma overdose de futilidades embaladas em filtros. Enquanto isso, o prato na mesa — que deveria ser a prioridade — virou detalhe na estatística. A comida sumiu do armário, mas temos reels de casal, bonecos de silicone, pratos caros com pétalas de ouro e milhões de curtidas num pedaço de bolo que não alimenta ninguém.

De vez em quando, quando te perguntarem “você viu o bebê reborn?”, “você viu o morango do amor?”, tenha coragem de responder: “E você viu quantos brasileiros dormiram sem janta ontem?”

Porque se a gente não lembrar do Brasil real, os absurdos continuarão vendendo sonhos enquanto esvaziam panelas.

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