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QUANDO O ÓBVIO VIRA TROFÉU: CRÔNICA SOBRE MARIDOS E GOVERNOS


Por: Jozadaque Santos

Porque, no fim, tanto no lar quanto no governo, sempre há quem faça o mínimo e se ache extraordinário.

Dizem que o marido tem um papel simples, quase óbvio: amar a esposa, cuidar dela, zelar pelo lar, prover com dignidade e, acima de tudo, manter vivo o namoro que sustenta o afeto. Não há heroísmo nisso. Não é um prêmio, nem um favor. É responsabilidade. É a parte que lhe cabe no pacto que escolheu assumir. Um bom marido não é o que faz além do básico — é o que faz o básico sem precisar ser lembrado. É o que não deixa faltar o essencial, nem presença, nem respeito, nem carinho.

Da mesma forma, o executivo — seja prefeito, governador ou presidente — assume uma casa maior. Administra a cidade, o estado ou o país como quem recebe das mãos do povo uma chave pesada, cheia de responsabilidades. É dever dele cuidar das ruas, das escolas, da saúde, da segurança, das oportunidades. É obrigação administrar com honestidade, transparência e eficiência. Nada disso é favor. Nada disso é motivo para medalha. É simplesmente o que o cargo exige.

E quando voltamos ao marido, percebemos algo curioso: nenhuma esposa quer permanecer ao lado de quem não cumpre seu papel. Quando ele não cuida, não respeita, não provê, não ama — a relação apodrece por dentro. E quem permanece, quase sempre, é porque depende financeiramente, emocionalmente ou socialmente daquele vínculo. Não é amor. É sobrevivência. É medo. É falta de alternativa aparente.

Agora, olhe para a sociedade. Por que razão um povo desejaria passar mais quatro anos com um executivo que não cumpre o papel dele? Que promete muito, entrega pouco e ainda se apresenta como salvador? Que tenta convencer o eleitor de que foi o único capaz de fazer aquilo que, na verdade, é apenas sua obrigação? É a velha história do marido que leva a esposa para jantar e quer ser canonizado por isso.

Antes de concluir, vale encarar a parte mais delicada desse paralelo: mesmo cumprindo apenas o básico, muitos executivos — tal qual certos maridos — tentam te fazer crer que são insubstituíveis. Criam discursos embalados em perfume barato, adornados com promessas e feitos reembalados como proezas. Manipulam a percepção coletiva, transformando dever em espetáculo. E assim, pouco a pouco, vão violentando psicologicamente a mente da sociedade, que começa a acreditar que precisa deles, que depende deles, que sem eles o mundo cai.

E enquanto você sofre quatro anos — ou mais — eles repetem que “ninguém fez isso antes”. Talvez porque ninguém tivesse tido coragem de transformar o óbvio em troféu.

Mas, veja, 2026 está logo ali, batendo na porta com o calendário na mão e uma sobrancelha arqueada. Assim como a esposa que, mesmo com o coração apertado, finalmente decide trocar de marido, a sociedade também pode trocar de gestor. Dói no início? Dói. Toda separação dói. Mas é aquela dor que limpa, que abre espaço, que ensina que existem outros caminhos. A dor que sussurra: “você não nasceu para viver de migalhas”.

E aqui fica a ironia poética: eles juram que são únicos, indispensáveis, incomparáveis… mas só são enquanto você acredita nisso.

No fim, você continua apenas se gostar de sofrer. Mas lembre-se: tem escolha. Sempre tem. Basta se dar uma chance.

Manaus/AM, 02 de dezembro de 2025

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